Servidor federal: compare os números e tire suas próprias conclusões

Levantamento mostra discrepâncias enormes na forma como os governos Lula, Temer e Bolsonaro trataram o funcionalismo público federal — de um lado, perda salarial acumulada de 35,58%; de outro, recomposição e ganho real acima da inflação

A relação entre os governos federais e os servidores públicos passou por mudanças profundas de diretriz nas últimas gestões. Servidores, representantes sindicais e analistas de políticas públicas apontam diferenças marcantes na forma como as administrações de Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e Jair Bolsonaro trataram o funcionalismo público federal — diferenças que, longe de serem opinião, aparecem em números concretos de reajuste, inflação e investimento em políticas públicas.

Para o Sintsep-GO, esse comparativo não é exercício teórico. Ele descreve diretamente o que aconteceu — ou deixou de acontecer — no contracheque de cada servidor da base ao longo da última década.

O desmonte dos governos anteriores

As gestões de Temer e Bolsonaro foram pautadas por uma agenda econômica neoliberal e de forte austeridade fiscal, concentrada na redução do tamanho do Estado e no corte drástico de investimentos em políticas públicas e no funcionalismo.

Durante esse período, os servidores federais enfrentaram um longo cenário de congelamento salarial. O governo Temer foi obrigado a conceder apenas os reajustes que já haviam sido negociados e aprovados ainda no governo Dilma Rousseff. Já o governo Bolsonaro encerrou o mandato sem conceder nenhum reajuste geral ao funcionalismo do Executivo, e sem corrigir benefícios como o auxílio-alimentação — mantido em R$ 458 durante todo o período.

A postura fiscal daquela gestão ficou marcada pela declaração do então ministro da Economia, Paulo Guedes, em 2020, ao afirmar que o governo havia colocado uma “granada no bolso do inimigo” — numa referência direta e explícita ao congelamento de salários dos servidores.

Somado todo o período Temer-Bolsonaro, a inflação medida pelo IPCA atingiu 35,58%. Segundo o secretário-geral da Condsef/Fenadsef, Sérgio Ronaldo, “os salários dos servidores foram completamente corroídos. Sofremos uma grande defasagem e o nosso poder de compra foi bastante reduzido. Muitos servidores passaram por grandes dificuldades financeiras, contraindo grandes dívidas nesse período”.

Ataques institucionais e desrespeito à categoria

Não foi apenas uma questão de congelamento salarial — houve ataques estruturais aos direitos dos servidores:

  • O governo Temer aprovou a Emenda Constitucional 95, o chamado Teto dos Gastos, que congelou investimentos públicos por 20 anos, limitando drasticamente as margens para novos concursos e reestruturações de carreira. Essa emenda só foi revista no governo Lula.
  • O governo Bolsonaro enviou ao Congresso a PEC 32/2020 (Reforma Administrativa), amplamente criticada pela Condsef/Fenadsef e por entidades representativas de todo o país — entre elas o Sintsep-GO — por propor o fim da estabilidade para futuras carreiras, flexibilização de demissões e facilitação de terceirizações no setor público.
  • Diversos decretos e instruções normativas prejudiciais à categoria foram assinados nesse período.


Ambas as gestões restringiram drasticamente a abertura de novos concursos públicos, provocando queda significativa no número total de servidores da ativa. E, no campo do diálogo institucional, a relação com a categoria foi praticamente inexistente — sem qualquer abertura real para mesas de negociação coletiva.

A reviravolta com Lula: reajuste salarial e recomposição de benefícios

O retorno de Lula à Presidência representou mudança clara de postura em relação à valorização do funcionalismo, com retomada das negociações formais e fortalecimento das estruturas públicas.

Já no primeiro ano de mandato (2023), o governo fechou acordo para conceder reajuste linear de 9% a todos os servidores do Executivo, além de elevar o auxílio-alimentação em 43% — de R$ 458 para R$ 658.

Os reajustes para 2024, 2025 e 2026 foram negociados em duas frentes, por meio do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI): correção de benefícios sociais e reestruturação de tabelas e carreiras. Como o orçamento geral não permitia aumento imediato no salário-base em 2024 por conta do arcabouço fiscal, a estratégia adotada priorizou o ganho via auxílios, com reajustes remuneratórios programados para os anos seguintes — incluindo a assinatura de mais de 50 acordos de reestruturação futura apenas em 2024.

Veja a evolução dos principais benefícios no período:

BenefícioAntes (governo Bolsonaro)Atual (governo Lula)
Auxílio-alimentaçãoR$ 458R$ 1.192 (dez/2025: R$ 1.175)
Auxílio-saúde—Elevação média de 49,3%
Auxílio-crecheR$ 321R$ 526,64

Em janeiro de 2025, houve novo reajuste salarial de 9% para a maioria das carreiras — em várias negociações, o índice final ficou acima desse percentual. Em 2026, para a maior parte do funcionalismo do Executivo (como os planos PGPE e CPST), foi aplicado reajuste de 5% a partir de abril, também superado em diversas negociações específicas. Os auxílios creche e saúde passaram, ainda, a ser corrigidos monetariamente pela variação do IPCA.

O número que resume tudo

Durante os quatro anos do governo Lula, a inflação acumulada (IPCA) foi de 20,08%, enquanto o reajuste salarial acumulado chegou a 24,75% — sem considerar ainda o aumento de steps (progressão por tempo de serviço ou mérito) formalizado em algumas negociações, nem outros incrementos específicos de carreiras.

Na prática, isso significa que a maioria dos servidores teve ganho real, acima da inflação, de no mínimo 4% no período Lula. Em contraste direto, o período Temer-Bolsonaro acumulou perda salarial de 35,58% para o funcionalismo.

Mesas de negociação, concursos e direitos restabelecidos

Outro ponto de virada foi o restabelecimento da Mesa Permanente de Negociação Coletiva, além de mesas setoriais, com a Condsef/Fenadsef e demais entidades representativas — criando canais regulares de debate e negociação para as campanhas salariais, algo inexistente nas gestões anteriores.

O governo também retomou ativamente a realização de concursos públicos, inaugurando o Concurso Nacional Unificado, o que resultou em expansão e reposição de cargos vagos no funcionalismo civil federal — revertendo a tendência de esvaziamento das gestões anteriores.

Politicamente, a atual gestão se posicionou contra a tramitação da PEC 32/2020 e revogou ou revisou decretos e instruções normativas das gestões anteriores que reduziam direitos sindicais ou funcionais.

O que esses números significam para Goiás

Para o servidor federal em Goiás, esse comparativo não é um exercício de memória — é um retrato direto de como diferentes projetos de governo se traduzem em contracheque, estabilidade e perspectiva de carreira. A comparação entre os números de um período e de outro ajuda a entender por que a defesa da continuidade das negociações coletivas e da valorização do funcionalismo é, para o Sintsep-GO, uma pauta inegociável diante do que está em disputa nas eleições de 2026.

Com informações da Condsef/Fenadsef
Fotos: Marcelo Camargo e Antonio Cruz (Agência Brasil)/Ricardo Stuckert (PR)

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