Grupo de Flávio Bolsonaro tenta barrar votação do fim da escala 6×1 no Senado

Candidato à Presidência atua nos bastidores para travar PEC que beneficiaria quase 15 milhões de trabalhadores — entre eles, parte significativa da força de trabalho terceirizada que atua em órgãos públicos

A votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 e a redução de jornada sem redução de salário está em debate no Senado, mas o grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) já articula abertamente para barrar o avanço da proposta. O candidato à Presidência é contrário ao fim da escala 6×1 e tem atuado nos bastidores para travar a medida — um posicionamento que, na prática, significa manter milhões de trabalhadores brasileiros numa das jornadas mais desgastantes do mercado de trabalho.

O resultado das urnas no primeiro turno, com o avanço expressivo da extrema direita no Congresso Nacional, torna o cenário ainda mais desafiador para a tramitação da proposta. Mesmo assim, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu manter o calendário de debates já definido.

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Como está o cronograma de votação

A PEC, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), está sendo discutida em três sessões semipresenciais no Senado. A manutenção do calendário, porém, não significa que exista consenso para levar a matéria à votação — pelo contrário: a oposição trabalha ativamente para esvaziar as sessões e dificultar a formação do quórum necessário para o avanço da proposta.

A decisão de Alcolumbre de manter o cronograma ocorreu na véspera do primeiro turno das eleições e foi vista como um gesto de aproximação com o governo Lula, que considera o fim da escala 6×1 uma de suas principais pautas no Congresso. A proposta já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados no fim de maio.

Quase 15 milhões de trabalhadores na escala 6×1

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), cerca de 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada cumprem a escala 6×1 no Brasil — ou seja, trabalham seis dias para ter apenas um de descanso. O número pode ser ainda maior: entre trabalhadores domésticos, outros 1,4 milhão estão submetidos ao mesmo regime, segundo o próprio MTE.

É justamente o avanço dessa proposta — que beneficiaria quase 15 milhões de pessoas — que o grupo político de Flávio Bolsonaro tenta impedir, numa demonstração clara de que seu projeto para o país não está alinhado aos interesses da maioria da classe trabalhadora.

Quem está na escala 6×1: um retrato desigual

Dados do Dieese, apresentados durante os debates da PEC na Câmara, mostram que a escala 6×1 atinge de forma desigual diferentes grupos da população trabalhadora:

RecortePercentual na escala 6×1
Mulheres32,2%
Homens33%
Trabalhadores pretos e pardos33,5%
Trabalhadores brancos31,7%

Regionalmente, Tocantins apresenta a maior proporção de trabalhadores na escala 6×1 entre os celetistas, com 48,1%, seguido por Santa Catarina (44,7%) e Roraima (43,9%). Em números absolutos, o Sudeste concentra cerca de 7 milhões de trabalhadores celetistas submetidos à escala.

Os setores mais atingidos

A escala 6×1 está concentrada principalmente em atividades que funcionam de forma contínua ou nos sete dias da semana — muitas delas prestadas por empresas terceirizadas que atuam dentro de órgãos públicos federais, incluindo serviços de limpeza, vigilância, portaria e alimentação, presentes também na estrutura de órgãos federais em Goiás:

  • Transporte aéreo: 53,2%
  • Serviços de alojamento: 52%
  • Serviços de alimentação: 47,1%
  • Comércio: 42,2%


Além disso, levantamentos do Dieese mostram que 64% dos trabalhadores formais cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais, e cerca de 20 milhões trabalham mais de 44 horas por semana — um retrato de precarização que a PEC busca começar a reverter.

Como a PEC pode avançar — ou travar — no Senado

O Regimento Interno do Senado exige que uma PEC passe por cinco sessões de discussão antes da votação em primeiro turno. Se aprovada, precisa passar por mais três sessões antes da votação em segundo turno. Existe a possibilidade de reduzir esse intervalo por meio de calendário especial — mas isso exige maioria simples dos senadores, o que a estratégia de esvaziamento das sessões, articulada pela oposição, busca justamente impedir.

Por que isso importa para o servidor público em Goiás

Embora a escala 6×1 seja uma realidade majoritariamente do setor privado celetista, ela afeta diretamente trabalhadores terceirizados que atuam dentro da estrutura de órgãos públicos federais — muitas vezes ao lado de servidores estatutários, nos mesmos prédios e repartições.

Mais do que isso, a tentativa explícita de Flávio Bolsonaro de travar uma proposta que beneficiaria quase 15 milhões de trabalhadores revela, de forma concreta, qual projeto de país seu governo representaria: um projeto que, diante da possibilidade de melhorar a vida de milhões de brasileiros sem redução salarial, escolhe ficar do lado de quem se beneficia da manutenção dessa jornada desgastante.

Para o Sintsep-GO, esse episódio reforça o que já vem sendo denunciado em outras matérias: o programa de Flávio Bolsonaro não é apenas uma proposta econômica entre outras — é um projeto que, na prática, se posiciona contra avanços concretos para a classe trabalhadora, seja ela celetista ou servidora pública.

Com informações da CUT
Imagem: Reprodução/DR

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