Reportagem sugeriu fim da estabilidade dos servidores públicos

Em toda a sua história, as Organizações Roberto Marinho muitas vezes foram acusadas de sexismo, racismo e golpismos contra as instituições democráticas. No entanto, a partir de 2018, suas afiliadas começaram a apoiar e dar visibilidade a movimentos identitários e culturais como nunca antes. Política de “controle de danos” para tentar descolar a sua imagem do Golpe de 2016 e dar alguma credibilidade ao telejornalismo?

Recentemente, a sua face mais visível, o telejornalismo da Rede Globo, sinalizou uma mudança de postura em relação ao governo Bolsonaro, principalmente no que se refere à política desastrosa (ou ausência dela) de combate ao coronavírus. Editoriais dramáticos narrados com a voz embargada de um engomadinho (segundo Roberto Requião) fizeram o país se emocionar, se dar conta de que o Brasil tem à sua frente governantes que flertam com o genocídio, palavras do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ou citando o insuspeito Reinaldo Azevedo: “Assumiram o risco de matar em massa por ação e omissão. E mataram. Genocídio.”

Se Bolsonaro agora é retratado como incompetente, autoritário e irresponsável pela Vênus Platinada, não nos esqueçamos que foi graças à catarse promovida pelas Organizações Roberto Marinho que um capitão reformado, parlamentar inexpressivo, foi catapultado ao posto de mandatário máximo da nação. Não nos esqueçamos também que dois dos artífices do atual Governo, Sérgio Moro e Paulo Guedes, continuam sendo incensados nos principais telejornais daquela organização.

Nessa linha editorial, esta semana, o Jornal Nacional fez um malabarismo com os dados para atacar as instituições públicas e os servidores públicos. A manchete que abriu aquela edição não poderia ser mais catastrófica, em tempo de pandemia: “Governo gastou três vezes mais com salários de servidores do que com saúde, diz estudo.” Na matéria, segundo o estudo, dados mostram que, em 2019, o governo gastou com salário de servidores públicos federais, estaduais e municipais três vezes mais do que com a saúde, representando quase 14% do PIB, enquanto a saúde pública recebeu menos de 4%.

Aí se descobre que tal estudo foi realizado pelos luminares do Instituto Millenium, que se declara como um “advocacy think tank” tupiniquim, um novo velho instituto ultraliberal, que defende o estado mínimo, criado para difundir a visão de um maravilhoso mundo liberal da economia e que tem entre seus sócios e fundadores, João Roberto Marinho e Paulo Guedes.

 O referido estudo compara o gasto com servidores (13,7% PIB) com os gastos em Educação (6%) e Saúde (4%), típico caso de desonestidade intelectual, pois o primeiro – gasto com servidores – contém boa parte dos outros dois – educação e saúde- que são áreas muito intensivas em pessoas. Pior, a reportagem mostra uma só visão, como se todo economista pensasse daquele jeito, e termina sugerindo acabar com a estabilidade do servidor, que existe em vários países e protege os servidores de pressões políticas garantindo a continuidade de políticas públicas. Este é o mesmo tipo de reportagem que faziam sobre o congelamento dos investimentos públicos, via EC 95, a reforma trabalhista e a reforma da previdência, escutando “especialistas” de um único lado, sempre com as mesmas opiniões e apresentando dados distorcidos. Claramente eles têm lado e certamente não é o nosso lado.

No início de 2020, as jornalistas Amanda Rossi e Renata Buono fizeram uma extensa e documentada radiografia do serviço público brasileiro. Neste estudo é mostrado que o Brasil tem 11,4 milhões de postos de trabalho no setor público, grande parte em áreas sociais. Apenas no nível municipal, há 2,6 milhões de postos de trabalho na educação e na saúde – mais que o dobro do número de funcionários públicos federais, de todas as áreas.

O estudo ainda mostra que metade dos servidores ganha menos de R$ 2,7 mil por mês, antes dos descontos. Em média, são os seguintes os salários recebidos por servidores públicos:

• Varredores de rua: R$ 1,6 mil;
• Professores de 1ª à 4ª série, com nível superior: R$ 3,3 mil;
• Médicos clínicos: R$ 9,8 mil;
• Administradores da alta gestão: R$ 10,3 mil;
• Engenheiros: R$ 11,6 mil;
• Procuradores de Justiça: R$ 37 mil.

Sabe-se que governo trabalha arduamente para realizar uma reforma administrativa. A proposta deve estabelecer novas regras para contratação de servidores, definir salários iniciais mais próximos aos do setor privado, endurecer as regras para promoções, flexibilizar o processo de demissão de servidores, fundir instituições e reduzir o número de carreiras.

Guedes, na famosa reunião de ministros, revelou sua proposta de reforma: colocar uma granada no bolso do servidor público. Ele ainda comparou o funcionário público a “um parasita” e o Estado brasileiro a um “hospedeiro” que “está morrendo”, um retrato generalizado e estereotipado de uma realidade muito diversa. Esta granada pretende implodir o serviço público, pois faz parte de uma política de desmonte do Estado, com a conveniência, colaboração e apoio de setores da grande imprensa, representando setores interessados em abocanhar parcelas significativas de atribuições hoje desempenhadas pelo serviço público.

No ano passado, o Jornal do SindCT já apontava que “exemplos desta voracidade em avançar em ‘negócios’ são encontrados de ponta a ponta do país, mas não precisamos olhar para além da nossa visão para detectar o ‘olho grande’. No nosso Inpe, o sistema de monitoramento do desmatamento na Amazônia, programa de reconhecida excelência por parte da comunidade científica nacional e do exterior, está na alça de mira do Ministro do Meio Ambiente.”

Nunca é demais lembrar duas frases icônicas. Uma, antiga, de Leonel Brizola: “quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem: se a Rede Globo for a favor, somos contra; se for contra, somos a favor”. Outra, atual, do escritor e jornalista Fernando Morais: “considero as Organizações Globo e a família Marinho inimigas do Brasil e dos brasileiros e que assim devem ser tratadas”.

“Os números inconsistentes sobre funcionalismo público e investimentos sociais apresentados pelo Instituto Millenium, divulgados pelo Jornal Nacional na segunda-feira, 10, repercutiram no debate público. Entidades, parlamentares e especialistas repudiaram os dados e reforçaram estatísticas que se contrapõem ao estudo da empresa que tem o ministro Paulo Guedes entre seus fundadores.”

É o que diz a Condsef, no artigo Entidades, parlamentares e especialistas repudiam dados do Instituto Millenium.

Fonte: SindCT